Gestão de Riscos Climáticos: um guia estratégico para o sucesso empresarial

Os impactos causados pelas mudanças climáticas já custaram mais de US$ 3,6 trilhões em todo o mundo desde 2000, com perdas que mais que dobraram nas últimas duas décadas. O aumento das temperaturas, os eventos climáticos extremos e as mudanças regulatórias não são mais ameaças distantes — eles já estão ocorrendo, afetando as operações, a cadeia de suprimentos e o valor comercial a longo prazo. Para se manterem competitivas, as empresas precisam ir além de respostas reativas. Identificar e gerenciar proativamente os riscos climáticos não se limita apenas ao compliance — trata-se de uma vantagem estratégica em um mundo em rápida transformação.

Compreendendo os riscos climáticos

Investidores estão cada vez mais exigindo avaliações de riscos climáticos, e os órgãos reguladores estão tornando obrigatórias. Essas avaliações permitem quantificar os impactos das mudanças climáticas nos portfólios das empresas e garantir a transparência dessas informações.

Uma avaliação robusta de riscos permite que as empresas compreendam o nível de exposição e as vulnerabilidades dos ativos em relação as ameaças climáticas. Essa compreensão profunda, por sua vez, serve de base para uma estratégia de adaptação climática personalizada, que, por sua vez, orienta a estratégia de negócios, proporcionando às partes interessadas uma visão mais clara da dinâmica do mercado e das tendências da concorrência.

Diagrama mostrando como riscos de transição e riscos físicos, juntamente com oportunidades relacionadas à mudança climática, influenciam o planejamento estratégico, a gestão de riscos, a estratégia de adaptação e o impacto financeiro reportado em relatórios corporativos e divulgações regulatórias como IFRS S2 e CSRD.

Uma avaliação abrangente de riscos contribui para toda a organização, incluindo  o aprimoramento do planejamento estratégico, o desenvolvimento de uma estratégia de adaptação bem fundamentada e melhoria nos processos de reporte.

Tipos de Riscos climáticos: Físicos e de Transição

Os riscos climáticos são, de modo geral, classificados em riscos físicos e riscos de transição. O impacto que um risco pode ter sobre uma empresa depende de três fatores principais: da magnitude do ameaças climáticas; do nível de exposição dos seus ativos; e das vulnerabilidades específicas da organização. As empresas devem analisar os potenciais ameaças climáticas, níveis de exposições e as vulnerabilidades sob diferentes cenários climáticos – de baixo e alto carbono – para obter uma visão completa dos riscos associados às mudanças climáticas e adaptar suas estratégias de acordo com isso.

Risco Climático

Na análise de cenários climáticos, devem ser explorados cenários de baixo carbono e de alto carbono, uma vez que os riscos físicos e de transição terão impactos maiores nos extremos opostos desse espectro.

Riscos Físicos

Os riscos físicos referem-se aos impactos diretos dos fenômenos meteorológicos e climáticos nas empresas. Esses riscos podem ser classificados como agudos ou crônicos:

  • Riscos físicos agudos: eventos climáticos específicos de curto prazo que alteram o estado do meio ambiente, tais como ciclones, furacões, ondas de calor ou de frio, ou inundações
  • Riscos físicos crônicos: Mudanças graduais no meio ambiente que resultam em alterações de longo prazo nos padrões climáticos, tais como temperaturas anuais mais elevadas de forma sustentada, aumento do nível do mar e mudanças nos padrões de precipitação.

Comparação entre cenários de baixo carbono (1,5°C) e alto carbono (4°C), destacando maior predominância de riscos de transição em cenários alinhados ao Net Zero e maior incidência de riscos físicos em cenários de continuidade das políticas atuais.

Um risco físico relacionado às mudanças climáticas é o resultado da interação entre ameaças climáticas, exposição e vulnerabilidade.

Principais etapas para compreender os riscos físicos

  • Identificar as ameaças climáticas: Analise a intensidade e a frequência dessas ameaças climáticas com base na localização geográfica e nas atividades ao longo de sua cadeia de valor, considerando diferentes cenários climáticos. As ameaças climáticas relevantes vão variar de acordo com a estratégia da sua empresa.
  • Avaliar a exposição: Analise o contato direto entre as ameaças climáticas externas e os ativos da empresa. As decisões e prioridades devem ser orientadas pelos níveis de incerteza e confiança associados aos indicadores de exposição.
  • Avaliar a vulnerabilidade: considere a importância financeira do sistema (criticidade), o grau em que o sistema é afetado por riscos climáticos específicos (sensibilidade) e os recursos e medidas disponíveis para adaptação ou mitigação dos impactos das mudanças climáticas (capacidade de adaptação).

Riscos de transição

Os riscos de transição decorrem do processo de transição para uma economia de baixo carbono e são normalmente classificados em quatro grupos:

  • Riscos normativos e jurídicos: por exemplo, novas legislações e exigências relacionados à conformidade
  • Riscos tecnológicos: por exemplo, aumento dos custos decorrentes da adoção de novas tecnologias ou ativos obsoletos
  • Riscos de mercado: por exemplo, a volatilidade dos preços de energia ou o aumento do custo das matérias-primas
  • Riscos reputacionais: por exemplo, a percepção negativa de determinados setores ou práticas de greenwashing 

Principais etapas para compreender os riscos de transição

  • Mapeamento da cadeia de valor: Avalie os possíveis impactos que os riscos de transição podem ter em diferentes setores da sua empresa por meio do mapeamento da cadeia de valor. Essa é a medida mais importante para identificar os riscos de transição.
  • Modelagem de riscos: Analise os fatores que influenciam esses riscos em toda a sua cadeia de valor e identifique quais sistemas podem ser impactados. Deve-se utilizar modelos para avaliar como diferentes variáveis econômicas, políticas, ambientais e energéticas podem afetar esses fatores determinantes e o nível de exposição dos sistemas.
  • Priorização de riscos: Os riscos devem ser priorizados com base na magnitude do impacto sobre o seu negócio e na probabilidade de ocorrência, para que medidas de adaptação possam ser desenvolvidas.
Diagrama da cadeia de valor mostrando fontes de emissões de gases de efeito estufa associadas a fornecedores, eletricidade adquirida, transporte e logística, empresa e clientes, evidenciando o impacto das emissões indiretas ao longo do ciclo de negócios.

Um exemplo de mapa da cadeia de valor que ilustra o impacto potencial dos preços do carbono — risco de transição de mercado — sobre uma empresa.

Transformando o risco em estratégia: o papel da divulgação

Nos últimos anos, os requisitos de reporte relacionados ao clima evoluíram significativamente em diferentes mercados e regiões. Entre os principais frameworks estão:

  • IFRS S2: Desenvolvido pelo Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade (ISSB), tem como objetivo padronizar os relatórios sobre riscos climáticos em nível global. Esses padrões de divulgação podem ser implementados em até 140 jurisdições.
  • CSRD: Exige que grandes empresas e empresas de capital aberto da União Europeia divulguem relatórios sobre riscos e oportunidades climáticas, além de outros temas ESG.
  • Califórnia SB219: empresas com receita anual superior a US$ 500 milhões que operam na Califórnia devem divulgar, a cada dois anos, seus riscos financeiros relacionados ao clima (tanto físicos quanto de transição) e as estratégias que estão implementando para mitigá-los.

Além da conformidade, essas estruturas representam uma oportunidade de integrar os riscos climáticos ao planejamento estratégico e gerar valor por meio de melhor capacidade de projeção, fortalecimento da confiança das partes interessadas e maior resiliência.

Fortalecendo a resiliência por meio da adaptação

A adaptação não é mais um tema secundário — é um requisito para a continuidade dos negócios. Um plano de adaptação eficaz identifica e implementa medidas que reduzem a vulnerabilidade climática ao longo do tempo — uma forma economicamente viável de reduzir os custos econômicos crescentes das mudanças climáticas.

Gráfico comparando os custos econômicos das mudanças climáticas ao longo do tempo em dois cenários: sem investimentos em adaptação, com aumento dos custos da inação, e com investimentos em adaptação, reduzindo impactos residuais e gerando benefícios econômicos.

O investimento em medidas de adaptação traz benefícios econômicos significativos.

Existem três tipos principais de medidas de adaptação:

  • Sem arrependimento: Medidas cuja implementação é vantajosa independentemente do cenário climática futuro (por exemplo, redução de vazamentos de água para melhorar a resiliência às secas).
  • Ganha-ganha: Medidas que reduzem os riscos associados às mudanças climáticas (ou potencializam as oportunidades) e geram co-benefícios (por exemplo, sociais, ambientais ou econômicos) além contribuírem para outros objetivos do negócio.
  • Opções flexíveis ou adaptativas: ações que podem ser ajustadas facilmente e a baixo custo caso as condições futuras sejam diferentes das projeções inicialmente consideradas.

Do Risco à Oportunidade

Gerenciar os riscos climáticos deixou de ser apenas uma exigência regulatória, mas uma prioridade estratégica para empresas que buscam criar valor e fortalecer sua resiliência no longo prazo. O aumento dos custos associados aos impactos das mudanças climáticas reforça a urgência das empresas compreenderem e gerenciarem tanto os riscos físicos quanto os riscos de transição. Ao realizar avaliações abrangentes de risco, as empresas podem identificar vulnerabilidades e desenvolver estratégias de adaptação personalizadas que aumentem a resiliência e aproveitem as oportunidades emergentes.

As empresas devem aproveitar as oportunidades decorrentes dos esforços de mitigação e adaptação aos riscos climáticos para terem sucesso em uma economia de emissões líquidas zero. Para obter orientação personalizada sobre como avaliar riscos climáticos, realizar uma análise de cenários climáticos ou elaborar um plano de adaptação, entre em contato com a SE Advisory Services para saber como nossos especialistas podem ajudar.

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