Enfrentar a escassez de competências em engenharia eletrotécnica através de novas formas de trabalhar

À medida que o mundo se torna elétrico, garantir engenheiros suficientes para manter a infraestrutura de suporte será um grande desafio. Em vez de encarar a gestão de ativos elétricos simplesmente como uma questão de números, é importante adotar uma abordagem mais proativa.

Desde alimentar as nossas fábricas até ao caminho que fazemos para chegar ao trabalho, não esquecendo o aquecimento das nossas casas, a eletricidade é uma parte cada vez mais importante da forma como vivemos. À medida que os esforços globais para atingir a neutralidade carbónica (net-zero) se intensificam, esta tendência só vai acelerar – mas deixa também claro que estamos a enfrentar desafios reais para encontrar engenheiros elétricos suficientes para a sustentar.

gestão de ativos elétricos

As iniciativas para descarbonizar a indústria e os transportes, bem como o rápido aumento de novos Data Centers – impulsionados pela expansão da IA e da computação na Cloud –, estão a criar uma procura crescente por energia elétrica e as infraestruturas que a suportam. O governo dos EUA, por exemplo, prevê um aumento de 9% nas vagas de emprego para engenheiros eletrotécnicos até 2033 – muito mais rápido do que o crescimento médio de 4% para todas as profissões; um total líquido de mais 26.200 postos de trabalho durante este período. No entanto, em todo o mundo, existe uma preocupação crescente com encontrar um número suficiente de pessoas com as competências necessárias para satisfazer esta procura. Um relatório do BCG de 2023 concluiu que, nos EUA, uma em cada três funções de engenharia não é preenchida, sendo a engenharia eletrotécnica uma das principais responsáveis por esta lacuna. Da mesma forma, a Austrália está a enfrentar uma escassez de competências e de mão de obra em engenharia que, segundo a Engineers Australia, é a mais elevada desde há mais de uma década. Uma investigação realizada por esta organização no ano passado revelou que as vagas para engenheiros são 16.8% superiores às de 2016, sendo que a procura por engenheiros eletrotécnicos representa cerca de 10% delas; e outro estudo recente previu um défice “sem precedentes” de competências de engenharia até 2040 (200 mil pessoas). O Japão e a Alemanha também estão entre os muitos outros países que enfrentam este tipo de carências.

Em suma, este desafio global está a contribuir para problemas específicos em setores em rápido crescimento, como o dos Data Centers. Num inquérito realizado pelo Uptime Institute em 2023, 58% dos operadores de Data Center afirmava estar a ter dificuldades em encontrar candidatos qualificados para postos de trabalho, e 41% sentia falta de profissionais do segmento eletrotécnico.

Infelizmente, esta procura crescente surge num momento em que o interesse dos jovens em entrar neste mercado de trabalho está a diminuir. Nos EUA, uma investigação revelou que diminuiu a atribuição de diplomas em engenharia eletrotécnica, tendo as candidaturas também diminuído drasticamente em comparação com as ciências informáticas. Entre aqueles que concluem os cursos de engenharia, menos de metade acaba por aceitar um emprego como engenheiro. Noutros países, como a Alemanha, o entusiasmo pela engenharia eletrotécnica também está a diminuir entre as gerações mais jovens, sendo que a área sofre até de uma imagem negativa. Estes problemas estão a criar dificuldades a nível mundial, não apenas para se conseguir formar um número suficiente de engenheiros, mas também para os incentivar a exercer a profissão. Na Austrália, por exemplo, um terço dos engenheiros qualificados nascidos no país não trabalha em funções de engenharia, tal como mais de metade dos que vêm de outros países.

Para além disso, muitos engenheiros experientes estão a reformar-se, levando consigo a sua experiência duramente adquirida. Nos EUA, cerca de 20% da atual força de trabalho de engenharia poderá reformar-se na próxima década. Trazer para as empresas colaboradores de outros países – ou da concorrência – é uma forma de lidar com a escassez de competências que estas enfrentam; mas, uma vez que se trata de uma questão global, é pouco provável que estas estratégias proporcionem soluções duradouras.

Número suficiente de profissionais e métodos de trabalho eficientes

Neste contexto desafiante, é encorajador ver surgir algumas abordagens promissoras, nas quais os stakeholders estão a trabalhar em conjunto para resolver o problema da falta de competências. Os Países Baixos, por exemplo, lançaram um “Plano de Ataque à Tecnologia” em que o governo e a indústria vão investir, cada um, 500 milhões de euros ao longo de 10 anos em medidas destinadas a preencher 60.000 vagas técnicas previstas. Isto envolverá elementos como novas estruturas de formação e iniciativas para atrair talento – bem como a introdução de formas de trabalho mais eficazes. É evidente que para ultrapassar a atual escassez de competências será necessária uma combinação de diferentes abordagens, mas o que é particularmente interessante no plano dos Países Baixos é a consciência de que o desafio não consiste apenas em recrutar e reter profissionais qualificados em número suficiente – mas também em utilizar eficazmente as suas capacidades.

Na Schneider Electric, vemos provas disto constantemente quando visitamos instalações dos clientes. Normalmente, a motivação é a necessidade de resolver um problema específico do sistema de energia, como uma interrupção no fornecimento. Quando os ajudamos a resolver o problema, as nossas investigações podem revelar que a dificuldade teve origem numa questão mais profunda. Talvez uma falha não tenha sido detetada a tempo de impedir a avaria de uma peça de equipamento, ou o plano de manutenção tenha permitido que uma parte importante do sistema se deteriorasse demasiado depressa. Para ajudar a evitar estas situações, estamos a conversar com os clientes sobre como podem introduzir formas de trabalho mais estratégicas e económicas, apoiadas pela nossa tecnologia.

Chamamos à nossa visão Eletricidade 4.0 – onde a eletricidade e os dados se combinam para apoiar as indústrias sustentáveis do futuro. Em linha com a filosofia da Indústria 4.0, trata-se de tirar partido da inovação digital para reduzir o desperdício e aproveitar os recursos ao máximo. Instalamos sensores ligados à Internet em componentes elétricos, que fornecem medições contínuas de variáveis como a temperatura e a corrente. A nossa análise suportada por IA utiliza depois estes dados para fornecer um modelo detalhado, contínuo e preciso do estado do equipamento – sem que este tenha de ser inspecionado manualmente. Para além de reduzir a necessidade de intervenções intrusivas no local, esta abordagem também é capaz de suportar uma eficiência muito maior. Quando temos uma imagem mais clara do estado do nosso sistema, podemos gerir os ativos elétricos de forma mais proativa. As paragens são mais curtas e menos frequentes, com calendários baseados no estado do sistema e não em prazos arbitrários; e os componentes duram mais tempo, porque as questões podem ser resolvidas antes de se tornarem problemas graves.

Trabalhar em conjunto para apoiar a gestão proativa dos ativos elétricos

O que significa isto para a escassez de talentos em engenharia elétrica? Naturalmente, quando as organizações são capazes de fazer a manutenção dos seus sistemas elétricos de forma mais eficiente, obtêm mais dos seus recursos – incluindo das suas pessoas. Em vez de combaterem crises desnecessárias, os engenheiros ficam livres para utilizarem as suas competências no desenho e desenvolvimento das infraestruturas necessárias. Isto ajuda muito a aliviar a pressão sobre a força de trabalho – e também pode apoiar mais eficiência de muitas outras formas. Alguns clientes beneficiam da monitorização contínua dos dados analíticos pelos especialistas do nosso Connected Services Hub – que podem aconselhar de forma remota quando é necessária uma intervenção –, permitindo-lhes utilizar melhor as suas competências internas. Para outros clientes, disponibilizamos especialistas no local para manter e gerir os seus ativos elétricos. Isto pode ser particularmente eficaz para projetos complexos e de missão crítica. Por exemplo, mais de 100 engenheiros da Schneider Electric, estão a trabalhar com a China Unicom para operar dois enormes Data Centers, num momento de expansão crítica da sua capacidade e onde há pouca margem para erros.

Quer o nosso suporte seja prestado remotamente, no local, ou através de uma combinação de ambos, os acordos representam uma relação contínua, dentro da qual cada organização pode focar-se naquilo que faz melhor. Para além de oferecermos conhecimentos práticos, podemos aconselhar estrategicamente na criação de sistemas de energia que estejam preparados para o futuro. A nossa rede global de mais de 250 consultores experientes pode fornecer insights fundamentados sobre como melhorar a sua infraestrutura – ajudando-o a compreender como tirar o máximo partido dos seus recursos, e como o podemos apoiar. Desenvolvemos a nossa tecnologia e análise líderes na indústria com base nos conhecimentos dos nossos 6.000 engenheiros eletrotécnicos; e, com mais de 300 cientistas de dados na nossa equipa, trabalhamos continuamente para manter os nossos serviços na vanguarda, através do machine learning e da IA generativa. Construir e gerir a infraestrutura de energia de que o mundo precisa será uma tarefa hercúlea – mas fazê-lo com sucesso é mais do que um jogo de números. Trata-se de contar com as informações corretas e de as utilizar para orientar formas inteligentes de trabalhar. A par destes desafios, o mundo da Eletricidade 4.0 também vai trazer oportunidades interessantes. Trabalhando connosco, pode lançar agora as bases para garantir que as conseguirá aproveitar.

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